Chico Xavier teve uma infância marcada por tristeza e sofrimento.
A infância de Chico Xavier foi permeada por experiências dolorosas, mas que moldaram o seu caminho como notável médium brasileiro.
Desde cedo, sem dúvida, ele já demonstrava muita sensibilidade e uma conexão profunda com o mundo espiritual.
Chico nasceu em Pedro Leopoldo, Minas Gerais, em 1910. Ele vivia com seus pais – João Cândido Xavier e Maria João de Deus – e seus oito irmãos num ambiente simples, mas acolhedor.
Sua mãe foi, de fato, uma figura de grande importância em sua formação, transmitindo-lhe valores sublimes como o amor, a compaixão e a fé.
Uma vida dedicada a uma nobre missão começou com uma infância de dissabores.
A infância de Chico, como veremos em seguida, não foi isenta de desafios. Muitos acontecimentos foram se sucedendo, como, por exemplo, a perda prematura da mãe, quando ele tinha apenas cinco anos e a vida sofrida na casa da madrinha.
Além disso, sofreu também a perda da segunda mãe na adolescência, as manifestações mediúnicas desde criança, incompreendidas pelos que com ele conviviam, o trabalho pesado ainda em tenra idade.
Entretanto, a presença espiritual da amorosa mãezinha o confortava e orientava, proporcionando a Chico um suporte valioso.
Chico veio com um nobre propósito a que estava destinado, como servidor abnegado da espiritualidade superior. Dedicado à divulgação da Doutrina Espírita, ainda assim não deixava de dar conforto e esclarecimento àqueles que o procuravam. E, de todos os modos, ele levava luz às dúvidas que lançavam sombras sobre a vida.
Assim, a infância conturbada de Chico Xavier, na verdade, preparou a sua alma para o caminho mediúnico, foi o solo fértil para o florescimento de seu elevado propósito.
Mas os fatos incutiram nele, pela forma como os aceitou, os preceitos morais do Cristo, que exemplificaria durante toda a sua vida, como a humildade, a paciência, o perdão, a resignação, a compaixão, o amor.
A jornada precoce pela espiritualidade e a força que ele encontrou nas adversidades lançaram as bases para a trajetória do médium que se encontra, sem dúvida alguma, entre os mais renomados e amados do Brasil e do mundo.
Leia, a seguir, um pouco sobre a infância de Chico Xavier, contada pelas palavras de Ramiro Gama¹.
Noemi C. Carvalho
Com a morte da mãe, começaram os padecimentos de Chico.
“A progenitora de Chico era um coração grandioso de mulher, um exemplar edificante de verdadeira mãe. Foi seu amparo, seu anjo tutelar até os 5 anos de idade, quando desencarnou, deixando-o órfão.
Aí começaram os primeiros sofrimentos que lhe burilaram a alma, preparando-a para o cumprimento de sua grandiosa Missão.
Quando Dona Maria João de Deus desencarnou, em 29 de setembro de 1915, Chico Xavier, um de seus nove filhos, foi entregue aos cuidados de Dona Rita de Cássia, velha amiga e madrinha da criança.
Dona Rita, porém, era obsidiada e, por qualquer bagatela, se destemperava, irritadiça. Assim é que o Chico passou a suportar, por dia, várias surras de varas de marmeleiro, recebendo, ainda, a penetração de pontas de garfos no ventre, porque a neurastênica e perversa senhora inventara esse estranho processo de torturar.
O garoto chorava muito, permanecendo horas e horas, com os garfos dependurados na carne sanguinolenta e corria para o quintal, a fim de desabafar e, porque a madrinha repetia, nervosa:
— Este menino tem o diabo no corpo.
A mãezinha querida ficou sempre presente durante a infância de Chico Xavier.
Um dia, lembrou-se a criança de que a Mãezinha orava sempre, todos os dias, ensinando-o a elevar o pensamento a Jesus e sentiu falta da prece que não encontrava em seu novo lar.
Ajoelhou-se sob velhas bananeiras e pronunciou as palavras do Pai Nosso que aprendera dos lábios maternais. Quando terminou, oh! maravilha!, sua progenitora, Dona Maria João de Deus, estava perfeitamente viva ao seu lado.
Chico, que ainda não lidara com as negações e dúvidas dos homens, nem por um instante pensou que a Mãezinha tivesse partido para as sombras da morte.
Abraçou-a, feliz, e gritou:
— Mamãe, não me deixe aqui… Carregue-me com a senhora…
— Não posso, — disse a entidade, triste.
— Estou apanhando muito, mamãe! Dona Maria acariciou-o e explicou:
— Tenha paciência, meu filho. Você precisa crescer mais forte para o trabalho. E quem não sofre não aprende a lutar.
— Mas, — tornou a criança — minha madrinha diz que eu estou com o diabo no corpo.
— Que tem isso? Não se incomode. Tudo passa e se você não mais reclamar, se você tiver paciência, Jesus ajudará para que estejamos sempre juntos.
Em seguida, desapareceu. O pequeno, aflito, chamou-a em vão.
O pequeno Chico seguiu o conselho de sua mãe.
Desde esse dia, no entanto, passou a receber o contato de varas e garfos sem revolta e sem lágrimas.
— Chico é tão cínico — dizia Dona Rita, exasperada, — que não chora, nem mesmo a pescoção.
Porque a criança explicava ter a alegria de ver sua mãe, sempre que recebia as surras, sem chorar, o pessoal doméstico passou a dizer que ele era um “menino aluado”.
E, diariamente, à tarde, com os vergões na pele e com o sangue a correr-lhe em pequeninos filetes do ventre, o pequeno seguia, de olhos enxutos e brilhantes, para o quintal, a fim de reencontrar a mãezinha querida, sob as velhas árvores, vendo-a e ouvindo-a, depois da oração.
Assim começou a luta espiritual do médium extraordinário que conhecemos.
Enfim, o reencontro do amor maternal.
Numa tarde, foi chamado à casa do pai, que se casara pela segunda vez com uma mulher muito meiga e por isto, bela, afirma o Chico.
Inspirada, talvez, pela falecida genitora do humilde médium, essa senhora impõe uma condição ao casamento: que o pai do Chico reunisse de novo os filhos, a fim de que ela os acabasse de criar.
E Chico, quando se viu à frente dessa criatura, quando soube do seu nobilitante gesto, quando sentiu no pescoço a carícia de seus braços carinhosos, não se conteve, beijou-lhe sentida e gratamente a barra da saia e votou-lhe, daí por diante, intensa e sincera amizade de verdadeiro filho.
Em correspondência a esse afeto, essa segunda mãe o ensinou a orar, a sentir Deus, a achar bela a vida, a trabalhar e a procurar ser útil aos outros.
O jovem Chico sofre outra dolorosa perda, mas cuida de toda a família.
Contava 17 anos e era feliz, quando a segunda mãe, de repente, adoece e desencarna, tendo-lhe antes feito prometer, à beira do leito, tomar a si o encargo de continuar com a casa e não permitir que fossem os irmãos, novamente, entregues a estranhos.
E assim fez. Empregou-se. Ganhava 60 cruzeiros por mês. Era pouco, mas com Deus era muito; dava para as despesas e ninguém passava fome.
Todos viviam satisfeitos. Aprendera a cozinhar e, auxiliado por uma irmãzinha, conservava em dia o expediente do lar.
Ganhava corpo, neste ínterim, a sua preciosa mediunidade. Recebe o “Parnaso de Além-Túmulo”; torna-se conhecido no Brasil e mundo afora.”
Fonte: Ramiro Gama, em “Lindos Casos de Chico Xavier”, Editora Pensamento.
Referência
1 – Ramiro Gama (nascido em dezembro de 1898 e desencarnado em maio de 1981) foi jornalista, escritor, poeta, conferencista e espírita dos mais atuantes, com dezenas de obras publicadas.
Das oportunidades que teve para se encontrar com Chico Xavier e das conversas descontraídas, compilou várias das histórias que ouviu do abnegado médium.
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