O bem não pergunta se estamos preparados para ajudar os outros.
Quando somos chamados a contribuir com a espiritualidade superior, não há motivo para não nos considerarmos suficientemente preparados para ajudar os outros. Os benfeitores espirituais sabem de que forma podem contar conosco nas mais diversas tarefas assistenciais.
Portanto, é necessário atender a todas as oportunidades que nos chegam para fazer o bem, nas mais diversas formas de caridade e solidariedade.
As reuniões mediúnicas sempre trazem, em si, uma dupla finalidade: o auxílio aos encarnados que procuram alívio para seus sofrimentos e, ao mesmo tempo, para os desencarnados que os acompanham, seja por vingança, por afinidade vibratória ou simplesmente por não compreender a sua realidade.
É o que nos explica o Irmão X, neste conto que você pode ler em seguida, onde ele levanta a questão para saber se estamos preparados para ajudar os outros.
Redação Espiritismo em Foco
A resposta do benfeitor
Em plena reunião, Venâncio, o orientador espiritual, senhoreava o aparelho mediúnico e falava para a assembleia de oito pessoas:
— É o culto do Evangelho, meus amigos. Precisamos de companheiros que se disponham a efetuá-lo no ambiente de nossos irmãos Silverini. A família recorre aos nossos préstimos e apelaremos, por nossa vez, para a misericórdia do Senhor.
O Evangelho é a nossa carta de crédito e o quadro é doloroso. Cinco jovens obsidiados. Imaginem-se vocês no lugar desses pais de coração aflito. A palavra da Boa Nova, porém, transformará o clima doméstico. Com o ensinamento de Jesus, os desencarnados menos felizes mostrar-se-ão tocados de remorso e os amigos que nos propomos socorrer encontrarão forças multiplicadas para a sustentação da paciência.
Para isso, nós, os humildes trabalhadores espirituais, necessitamos das vozes e das mãos de vocês. Estimaremos, assim, ouvi-los a respeito do assunto. Quem do grupo é capaz de ajudar-nos nesse cometimento? Basta estejamos na casa dos Silverini, duas horas por noite, duas vezes por semana…
A resposta ao pedido de auxílio foi o silêncio.
Ninguém respondeu. Venâncio, contudo, voltou à carga, perguntando nominalmente:
— Que me diz César?
E César o diretor da equipe gaguejou:
— Eu, meu amigo? Realmente não tenho qualidades. Sou um lobo em pele de ovelha. Estou aqui por acaso. Tenho um gênio rude, violento… Receio agravar a situação…
E o curioso inquérito prosseguiu.
— E a senhora irmã Júlia?
— Decididamente, sou a última – respondeu a dama referida. – Reconheço-me incapaz. Em casa, todos me dizem descontrolada, falastrona…
— E a senhora, irmã Nícia?
— Ora, Venâncio, temos em sua presença o carinho de um pai; no entanto, a sua bondade compreenderá… Sou mãe solteira. Você sabe que a Doutrina Espírita foi minha tábua de salvação, para que não descesse a muitos desatinos. Não tenho coragem de enfrentar…
— E a senhora, irmã Cláudia?
— Ainda sou uma obsidiada. Há momentos em que sinto enorme dificuldade para suportar a mim
própria. Creio que minha cooperação apenas conseguiria piorar…
— E o nosso Lauro?
O moço apontado tartamudeou triste:
— Quando vim para cá era fichado na polícia. Com a benção de Deus, sou agora outro homem. Ainda assim, temo criar problemas…
— E a irmã Gina?
— Eu, Venâncio? Logo eu? – disse a senhora que fora nomeada – também não posso… Sou um abismo de inferioridades e tentações…
— E o irmão Souza?
— Minha boa vontade é grande – afirmou o amigo chamado a testemunho -; contudo, sofri pesada falência no ano passado. Desde que fechei minha loja, tenho letras protestadas… De que jeito iria falar no Evangelho? Dou graças a Deus por não estar na cadeia…
— E você, irmão Ciro?
Entretanto, o rapaz trazido a pronunciar-se, explicou:
— Sou franco… Não passo de um animal. Sem o amparo de nossa reunião, estaria na sarjeta.
O auxílio não pode esperar a perfeição espiritual.
O silêncio caiu pesado. Venâncio, após refletir alguns momentos, retomou a palavra e orou com inflexão de profunda tristeza, rogando a Jesus encorajamento ao trabalho.
Havia, porém, tanta amargura na voz do amigo espiritual, que, ao término da petição, o dirigente da casa indagou, inquieto:
— Ouça Venâncio! Está você agastado conosco?
— De modo algum – replicou o benfeitor.
E acrescentou:
— Cada um dá o que tem. Sei que experimentam grandes obstáculos. Mas se vocês estão aguardando asas de anjos para poderem auxiliar na Terra, eu sou alma humana com necessidade de serviço, a fim de curar as minhas próprias imperfeições…
Até que vocês cheguem ao Céu, vai levar muito tempo, e eu, sinceramente, não posso esperar…
E antes que os amigos, repentinamente despertos para a responsabilidade, conseguissem emitir novas opiniões, Venâncio despediu-se.
Irmão X, no livro “Contos Desta e Doutra Vida”, psicografado por Chico Xavier
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